Correio de Carajás

Pesquisa da Unifesspa mostra como o isolamento social impactou a saúde mental das pessoas

Isolamento social

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O estudo “COVID-19, isolamento social e sofrimento psíquico: Fatores mediadores” mostrou os efeitos da solidão e do consumo de informação na mídia sobre o sofrimento psicológico durante a pandemia

Pesquisadores do Núcleo de Estudos em Neurociências e Comportamento e do Núcleo de Estudos em Práticas Psicossociais e Saúde, da Faculdade de Psicologia da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará, publicaram os resultados de uma pesquisa sobre como o isolamento social afetou a saúde mental das pessoas nesse momento de pandemia.

Realizada entre maio e agosto deste ano, a pesquisa teve a participação de 440 pessoas, que responderam a questionários on-line sobre suas práticas de isolamento social, sentimentos e emoções que estavam vivenciando nessa pandemia, e sobre como enfrentam essa situação. Na segunda etapa da pesquisa, 55 participantes responderam a uma entrevista sobre como vivenciam a solidão e o isolamento.

Nesse período, de incertezas sobre o isolamento social, os pesquisadores observaram um aumento dos sentimentos de ansiedade, preocupação, tristeza e estresse. Eles descobriram que a maioria das pessoas que se isolaram de maneira mais intensa apresentavam muitos sintomas de sofrimento psicológico, incluindo ansiedade e depressão, enquanto as pessoas que se isolaram de maneira menos intensa apresentavam bem menos sintomas.

De acordo com o estudo, 71,03% das mulheres e 40,71% dos homens que responderam os questionários apresentaram sintomas clinicamente importantes de sofrimento psicológico. Quando analisado o grupo de pessoas que disseram ter saído de casa menos de uma vez por semana, a taxa desses sintomas atinge 76,9%, no grupo feminino, e 58%, no grupo masculino.

Os pesquisadores investigaram, ainda, quais estratégias de enfrentamento são utilizadas pelas pessoas para lidar com a solidão na quarentena e com esse sofrimento psicológico, e como essas estratégias influenciam o sofrimento. “A primeira coisa que descobrimos é que, quanto mais as pessoas aderiam ao isolamento social, mais solitárias se sentiam”, explica Talita Barroso Garcia, uma das pesquisadoras do grupo.

A pesquisa também sugeriu que a forma como lidamos com essa solidão pode piorar seu impacto na saúde mental. “Estratégias de enfrentamento são mecanismos conscientes e intencionais que as pessoas usam para lidar com situações de estresse, ameaça ou desafio, quando respostas automáticas não estão disponíveis. Isso ocorre, por exemplo, quando nos vemos em uma situação completamente nova, como uma pandemia”, explica o professor Caio Maximino, líder da pesquisa.

“Uma de nossas hipóteses, que ganhou bastante apoio com nossos resultados, é que, para algumas pessoas, a solidão faz com que elas busquem se afastar mentalmente do estresse da pandemia e de suas consequências psicológicas, o que faz com que a solidão seja pior”, complementa.

Para o professor Normando Queiroz, um dos coordenadores da pesquisa, o significado que os participantes deram ao isolamento é complexo e multifatorial. “Nesse estudo, descobrimos que as pessoas vivenciam o isolamento de maneira bastante complexa, envolvendo tanto experiências de ansiedade e tensão, em que as pessoas ficam ‘remoendo’ os problemas e as angústias, quanto experiências de caráter reflexivo, voltadas para cuidar de si mesmo e dos outros”.

Segundo os pesquisadores, na ausência de vacinas ou medicamentos que sejam efetivos no tratamento da COVID-19, a única solução para diminuir a infecção, as mortes, e o impacto sobre o sistema de saúde é o isolamento social. As taxas de isolamento têm caído bastante, o que pode refletir uma tentativa de escapar desses sentimentos negativos que aparecem no isolamento.

“Entender quais são os efeitos nessa situação de pandemia e o que influencia esses efeitos pode ser muito importante para propor novas formas de isolamento que não impactem tanto a saúde mental das pessoas, e também explicar porque muitas pessoas estão ‘furando’ a quarentena”, afirma Raíssa Oliveira, uma das pesquisadoras do grupo.

Mylena Ribeiro, também pesquisadora do grupo, ressalta o alto consumo de informações sobre a pandemia, mas que nem toda fonte de informação muda, de maneira positiva, a percepção de risco. “Descobrimos que pessoas que consultavam informações sobre Covid-19 com maior frequência em fontes da Internet – jornais online, redes sociais, e podcasts – apresentavam mais sintomas”.

Para a cientista, esses resultados foram surpreendentes. “Chama atenção a ausência de um efeito da consulta mais frequente a mensageiros eletrônicos, como o WhatsApp. No Brasil, essa ferramenta é uma das principais fontes de desinformação. Achávamos que as pessoas que buscam informação com maior frequência nessa rede iriam apresentar mais sintomas, mas não foi o caso”, comenta Mylena.

O segundo motivo de surpresa com esse resultado tem a ver com estratégias de enfrentamento: “Acreditávamos que muitas pessoas usariam as informações vindas dessas fontes para fazer o que chamamos de ‘reavaliação positiva’, que é tentar ver ‘o lado bom’, reenquadrar um evento como se ele fosse positivo ou menos negativo. Mas não foi isso que observamos. As tentativas de reavaliação positiva resultaram em mais sofrimento psicológico”, pondera Caio Maximino.

Agora, os pesquisadores estão trabalhando junto com profissionais de saúde mental e clínica psicológica para criar uma série de recomendações para gestores de saúde, trabalhadores da saúde mental e psicólogos clínicos, para mitigar esses efeitos negativos. “O sofrimento não pode ser usado para justificar, individual e coletivamente, o fim do isolamento. Saúde mental é fundamental, mas não é acabando com o pouco confinamento que ainda temos que poderemos resolver a questão”, afirma Talita Garcia.

Participaram da pesquisa: Raíssa Oliveira de Mendonça, Mylena Maria Ribeiro de Almeida e Talita Barroso Garcia, alunas do curso de Psicologia da Unifesspa; e os professores: Normando José Queiroz Viana e Caio Maximino, também da Faculdade de Psicologia. A pesquisa foi aprovada pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa, e está disponível no repositório PsyArXiv: https://psyarxiv.com/f942w. Um relatório executivo, preparado para profissionais de saúde, pode ser encontrado em https://osf.io/vzxd3/

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